
Tirgoviste, Valáquia 1456.
A Valáquia em que Vlad Drácula, Príncipe da casa de Basarab e Duque de Valáquia, governava na época era formalmente conhecida como o estado de Tara Romenescu, “Terra da Romênia”.
Desde antes do tempo do avô de Drácula, a província foi governada por um príncipe, ou domnul. O domnul trabalhava com os latifundiários e boiardos para manter o fluxo de comércio e o direito de terra segura contra os intrusos e infiéis. Também, o domnul mantinha um bom relacionamento com os membros da igreja católica romana, que dominavam a Romênia. Ambas as partes foram relativamente paralela, Deus e César mantidos felizes, por assim dizer.
No entanto, Drácula teve um novo, e o que ele chamou necessário, plano para o seu principiado, onde o César seria apenas um pouco mais feliz e muito mais poderoso. Tão logo reconquistou de Vladislav o trono valáquio, ele acabou com o sistema feudal do domnul que, insistiu, não era mais que um fantoche para a classe dominante, como os boiardos, barões ricos, e os líderes da igreja com patrocínio externo. Após a sua coroação como príncipe, ele anunciou que o povo deve olhar para ele como um voivode, um príncipe guerreiro, governador de seu domínio, doravante, como se sob a lei marcial, onde há um soberano, um decisor. Como os turcos impunham uma ameaça constante sobre a terra, ele considerou a Valáquia um estado de guerra, e um estado de guerra requer um governo mais duro.
Até aquela época, os boiardos tinham feito as suas próprias leis; eles tinham ainda a propriedade de interferir na justiça do príncipe. Isso acabaria. E aqueles que revidassem, Dracula explicou, seria tratado – seriamente – a partir do trono em Tirgoviste.
Ao estabelecer seus planos, Drácula havia trazido a seu lado uma comitiva de aliados fortes, muitos dos quais haviam sido campeões da família durante décadas, e que tinha servido fielmente ao seu pai, o Dragão. Nem ele, nem eles, haviam esquecido que o idoso durante o reinado de muitos dos proprietários de imóveis na Valáquia tinha causado problemas. Muitos tentaram minar o Dragão. Drácula já tinha matado os responsáveis pela morte do Dragão, mais não foi suficiente.
Depois que suas políticas de transição foram anunciados, os boiardos começaram a reclamar das ordens do novo governante, ponderando se mudar de lado foi a melhor decisão. Alguns boiardos retaliaram a escrever cartas e convocar reuniões de protesto. Pensavam que, mais cedo ou mais tarde, iriam acabar domando o rapaz.
Drácula, que percebeu que sua mensagem não estava a ser levada a sério e odiava os ricos comerciantes alemães e famílias nobres – os boiardos – realizou uma grande festa no saguão de entrada do Palácio de Torgoviste e convocou à sua corte, à poderosa nobreza do país, cerca de duas centenas de homens para deixá-los falar as suas queixas durante um suntuoso jantar. Não só reuniu os homens, mas também suas mulheres e seus filhos, juntamente com cinco bispos, os abades dos mais importantes mosteiros estrangeiros e nacionais, e o arcebispo.
Ansiosa por cargos e regalia, mais de uma centena de boiardos acorreu, de peito inflado pela ambição, ao chamado do novo suserano. E não suspeitavam os gentis homens que as portas do castelo se abriam como o aparato móvel e fatídico de uma ratoeira.
O jantar foi servido as dez. A comida foi colocada imediatamente na mesa, mas ninguém tocou nela antes de o reitor proferir em latim o pedido de benção para a refeição. Quando terminou a oração, todos se sentaram e começarm a servir-se. Havia pão de trigo, broa, sopa de legumes, carne de porco, ovos e castanhas. Para beber tinham água e vinho. Comiam enquanto falavam, fazendo passarem por uns gestos para os outros o pão, a carne ou o vinho.
Durante todo o jantar, Vlad estava sombrio e silencioso, limitando-se a observar cada membro na mesma mesa de jantar à que ele estava sentado, com aqueles olhos escuros, profundos e misteriosos que pareciam penetrar a alma. Ali os talheres eram de ouro, não de prata, e os trinta lugares não eram num banco de carvalho, mas sim em cadeiras de mogno com almofadas de veludo. Sentados em cada cadeira, estavam todos nobres poderosos, de grande riqueza e poder, regras e boiardos em Valáquia e Transilvânia. Fazia agora poucos dias desde que ele tinha levado controle de Valáquia. Rei Janos Hunyadi havia morrido e a Hungria estava atualmente debaixo da lutas de poder. A maioria dos Danestis foi morta e o restante fugiu.
Enquanto Drácula inspecionava as expressões sorrateiras e desonestas dos boiardos, pensava que entre os convidados estariam os assassinos de seu pai e de seu irmão.
A meio da refeição, depois que eles tiveram tempo de expressar-se, Drácula, na cabeceira da mesa, empurrou para trás o seu copo de vinho e, de repente, se levantou de seu assento. Deu um peteleco de leve na taça; o som percorreu todo o salão. Todos o olharam, subitamente calados. Fez então um discurso pouco típico de um príncipe da Valáquia, que era normalmente um instrumento dos boiardos.
― Cavalheiros, agradeço por aceitarem meu convite para este humilde jantar. ― disse, indicando a quantia impressionante de comida na mesa. Alguns homens riram. – A maioria de vocês conheceu meu pai, o Dragão. A maioria de vocês era partidário dele, pelos dias que ele governou.
Um boiardo elevou a taça de vinho.
― Dracul era um grande homem. E nós esperamos que o filho dele seja também um grande homem. Para Drácula!
Outros homens também elevaram as taças e declararam ruidosamente.
― Para Drácula!
Vlad teve um pequeno sorriso na face, o de uma criança que sabe que ele adquirirá algo bom.
― Obrigado. Mas antes de todos vocês começarem a celebrar, há certa questão que nós precisamos discutir. Lealdade. Tenho estado a pensar sobre o destino da minha terra e queria perguntar-lhe a todos uma coisa: Quantos príncipes conhecestes, meus leais súditos, durante as vossas vidas?
Depois de alguns risos e caretas na audiência, reinou um momento de silêncio.
― Quantos?
― É uma pergunta simples. – Vlad virou ao mais jovem dos homens. ― Tu, Andrei. Quantos Príncipes da Romênia conheceste?
― Sete, meu senhor.
― E tu, Bordeaux?
Querendo impressionar o jovem príncipe com seu poder, ele respondeu:
― Muitos. Demasiados.
― Desde vosso avô meu soberano, não houve menos que vinte príncipes. E eu sobrevivi a todos eles. – disse outro.
― Eu já sobrevivi a trinta reinados. – retorquiu um terceiro.
Desse modo, quase pitoresco, cada boiardo permanecia no seu lugar e testava a severidade de seu novo governante. O título do principado e tudo o que ele implicava eram vistos como uma dose de ironia.
― Vocês falam de sua lealdade a Valáquia, a Romênia, e alguns até mesmo para mim. Mas, ainda assim, vocês tiveram muitos príncipes na sua terra, incluindo meu pai. Como explicam isso?
A assembléia se entreolhou, esperando por um constituinte entre eles para ser o porta-voz.
― O mundo é assim mesmo. Instabilidade.
― E de quem é a culpa? ― o princípe voltou a indagar.
― Do povo? Da natureza humana?
― Dos próprios Príncipes?
― Desafio qualquer um de vocês admitirem a verdade! Eu vou dizer-vos o que eu acho do porque os príncipes têm ido e vindo aqui: Por causa de suas intrigas vergonhosas! Vocês... Vocês são o motivo. A vossa ganância, a vossa deslealdade, a vossa corrupção. Vocês apoiaram os Danestis, meu pai e antes dele meu tio. Da forma como a lealdade de vocês muda tanto, eu estou achando difícil confiar em vocês. – ele disse.
A mesa estava de repente muito quieta. Um homem riu inquieto.
― Nosso senhor zomba conosco. Se ele tivesse qualquer dúvida sobre nós, ele não nos teria convidado para a casa dele. – ele disse, tentando soar alegre.
― Verdadeiro como isso poderia ser... – Vlad Drácula disse suavemente. – Eu tenho que admitir que sinto grande intranqüilidade. Vocês boiardos, condes e duques, os homens de riqueza e poder. Vocês conseguiram manter suas posições por pelo menos três regras distintas, porque vocês se submeteram ao testamento deles. Porém, como o caso de meu pai provou, vocês também sabem quando é melhor para se submeter as próximas regras e substituí-la pela regra antiga. E eu não posso correr tal um risco. Mais valia serem agentes dos Turcos. E agora, vai tudo terminar. Eu vou elevar a Valáquia da lama que os Danesti a afundaram e fazer o que eu devo para libertá-la de toda a sujeira. Haverá apenas um governante de Valáquia, agora. Essas são as minhas palavras, para aqueles que perderão suas almas para mim. Todo aquele que leva uma vida de luxúrias e futilidades, sem honra, encontrará em meus cânticos, seu destino.
― Príncipe Drácula, o que você... – um dos homens começou a perguntar, mas não terminou.
Drácula, com seus olhos brilhando de um modo que se tornaria característico, acenou para um cortesão aguardando na porta, ele, por sua vez, sinalizou para um número de guardas que esperavam no vestíbulo. Os homens saíram de seus esconderijos e se aproximaram da mesa, um homem atrás de cada boiardo, com suas espadas descobertas. Dentro de minutos, seus fiéis servidores haviam cercado o saguão. Mal as barras de ferro selaram os portões do vasto salão de banquete, veio à ordem do sanguinário soberano, cuja crueldade rivalizava com a incomplacência: Drácula ordenou que todos os boiardos presentes – homens, mulheres, crianças, sem distinção de idade, sexo ou condição – fossem executados. Os homens à mesa estavam chocados e se levantaram.
― O que?
― Traíste-nos!
Vlad considerava-os com um riso zombeteiro, seus olhos, quando ele os olhou, era a de um animal selvagem que tem a sua presa em seu poder, e regozijando-se com o horror sem nome, que ele viu retratado em todas as suas faces.
― Respondeste a minha próxima pergunta. Ia pedir que os assassinos do meu pai se levantassem. Não pensem muito mal de mim, mas minha esposa chegará em um ou dois dias, e eu realmente quero todos os problemas estatais resolvidos até lá. – Vlad disse, ainda falando com uma voz muito macia.
― Miserável!
― Vocês serão escoltados para fora! – Drácula disse a seus hóspedes. – Saiam da minha frente! – Brindou-os em zombaria, vendo como eles saíram, ladeados por guardas armados.
Quando a comitiva chegou ao pátio, um a um os nobres valáquios, assim como suas mulheres e empregados foram imediatamente lanceados em estacas de madeira afiadas, encontrando a morte cruel pela empalação.
Drácula apareceu na varanda para assistir. As lanças foram fixadas no chão, em seguida, as vítimas iam deslizando pela estaca. Ainda em espasmos, os corpos eram empalados e deixados expostos na vizinhança do palácio, com vista para a cidade, até que seus corpos fossem devorados pelos corvos.
O luar derramava-se com generosidade e beleza. Ele se sentou e começou a comer o jantar delicioso, sem nem mesmo se importar em elevar os olhos para assistir os nobres agonizarem.