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Traição


Uriel lembrava da primeira vez que ouviu a Voz. Lembrava-se da primeira palavra que ouviu em sua criação.

Foi há muito tempo atrás...

O anjo de asas cinzas e o anjo de asas brancas observavam o mundo no alto de um abismo.

― Os humanos... eles não são do tipo que nós somos. Nós somos iluminados, eles não são. Além de tudo eles são estranhos, nem feios, nem bonitos, estranhos. Estes mortais lutam entre si em seu próprio território e agem como animais, consumindo uns aos outros. Não possuem nenhuma meta derradeira a atingir, nenhuma existência em comum. Mas também é verdade que nenhuma existência seria possível nesta desordem pura. Veja como eles criam e vangloriam-se dos teus deuses de pedra e madeira cinzelados e fundidos, esculpidos e pintados, deuses que não vêem nem ouvem. Eles nem sabem o que é a verdadeira Pureza. ― Comentou o anjo de asas brancas para o outro que se mantinha silencioso. Exalava um odor doce e inebriante de sândalo, que vinha das mechas loiras de cabelo que caiam em seu rosto.

O anjo de asas cinzas o observou, notando que os pensamentos do outro eram bélicos e eloqüentes.

― O que você diz é verdade, Estrela da Manhã. - Respondeu pacientemente o anjo de asas cinzas. Fechava os olhos e pensava... - Mas o que eu direi agora também é verdade, porque eu só posso falar somente o que Deus em sua brandura mostra para mim: que os humanos não serão interferidos. Não temos este direito e nem liberdade de interferir em seus pensamentos e consciência.

Lúcifer fitou-o, incapaz de fazer algum comentário irônico. Em circunstâncias normais, teria sido o primeiro a zombar das palavras de Uriel. Porém, sentiu um gosto amargo na boca.

― Eu entendo. Mas isso não significa que eu aprove. – respondeu Lúcifer.

― Deus não nos concedeu o direito de julgar. Eu suponho que verei com o tempo que propósito estes humanos servem, mas só quando e se Deus julgar este direito a mim.

Lúcifer se virou naquele mesmo momento, revelando ao outro seu rosto belo e aqueles olhos tão enigmáticos.

― Pelo que sinto de sua personalidade, você tem paciência, meu amigo. Mas um homem paciente nem sempre é um homem virtuoso. Quem pacientemente espera o lobo partir condena à morte a si próprio.

Lúcifer retirou um punhal da cintura. A mente de Uriel foi rasgada de seus pensamentos quando ele sentiu uma dor no lado esquerdo que levou espasmos por todo o seu corpo. Ele girou a cabeça lentamente e olhou com surpresa para o punhal cravado em sua carne, sentindo o gume roçar-lhe uma costela. Sabia que aquele anjo estava a cometer um ato horrível, algo que nunca fizera antes e que iria ter conseqüências gravíssimas. Suas mãos apertaram ao redor do cabo de prata da pequena arma e arrancou a fria lâmina de seu corpo, fitando o anjo de asas brancas que tinha o apunhalado.

― Singelo és tu que me fere, que rouba meu sossego, que me apunhala por trás. Diga-me... Por que? Por que me apunhala de forma traiçoeira?

― Porque eu não compartilho desta sua mesma virtude.

Lúcifer riu e seus pés deixam de tocar o chão, sustentando-se no ar. Em ambos os lados cresceram-lhe asas nas costas que uma vez lustrosas e que antes brilhavam como espelhos sob a luz do sol, já mostravam sinais de escurecimento e penas perdidas. Uriel encarou o punhal. A traição ainda era mais intima, quando ele percebeu que era o mesmo punhal que ele havia dado para Lúcifer há bilhões de anos atrás, quando a Terra tinha sido finalmente construída. A lâmina feita de um pedaço do primeiro minério.

Os olhos do anjo de asas brancas cintilaram. Ele riu de novo, com malicia e ironia. Uriel agarrou com força o punhal todo cravejado de esmeraldas, o próprio sangue gotejando da ferida aberta pela lâmina. Segurando a adaga, ergueu-a, o seu próprio sangue escorreu da lâmina até o cabo.

― Não pode ser...

Ele sentia uma nova dor, uma dor espiritual, uma dor que torcia por todo o seu corpo. O anjo atraiçoado sentia a dor que ele não entendia; sentimentos os quais ele não sabia dar nomes. Uriel se ajoelhou e olhou para o céu além da copa das árvores que começava a se tingir de tom rubro. Lágrimas de tristeza se misturavam às de raiva. Ele rezou a Deus na esperança de poder entender as nuances do plano Dele corretamente. E Uriel ouviu algo que ele não ouvia durante milhares de anos. Ele ouviu a Voz.

7 comentários:

War Inside My Head disse...

Adorei o Post...interessante!
Estou te seguindo tb, quando puder segue o meu tb!
Grande abraço e bom final de semana
http://yaseryusuf.blogspot.com/

palavras ao vento disse...

muito legal ..gostei...storia nos envolve parabens....

Daniel Silva disse...

adoro contos! principalmente os que envolvem personanges da fantasia, como lúcifer.

você escreve muito bem.

abraço

Igor André disse...

Com assim Andréia? Tração ainda não terminou né? Fiquei aqui esperando o desfecho. Mas do que os Seus planos, eu queria saber sobre os planos de Lucifer...como vocE não foi temporal, por um momento pensei se tratar de algo que em falarei aqui...por enquanto rsrsr

No mais, o que poderia falar da forma como escreve evitarei faze-lo para não cair na rotina.

Parabens

Beijinho

www.ordemincaos.blogspot.com

Andreia_Kai disse...

Oi Igor,

Agora fiquei curiosa para saber o que pensou...rsrsrs. O conto Traição terminou, mas logo teremos mais contos sobre anjos e demônios aqui no blog.

Beijos e muito obrigada!

Andreia_Kai disse...

Daniel,

Agradeço seu comentário. É sempre complicado escrever sobre a temática, mas é gratificante quando os leitores escrevem palavras positivas sobre nossos escritos.

Um abraço.

Alexandre Rodrigues disse...

Adorei o conto! Fiquei curioso para saber mais...você escreve muito bem, vou continuar acompanhando o seu blog. Parabéns. Abraço!

http://tudosobretudo-jhony.blogspot.com

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